MÚSICA DA HORA: o divã de Freud no trauma do rei

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MÚSICA DA HORA: o divã de Freud no trauma do rei
maio 06
14:27 2018

Quando nasceu, chegava feito um profeta anunciando choque de mudanças no pensamento coletivo; provocaria o intelecto e a ciência, causaria pavor aos conceitos num mundo de políticas conturbadas e que se tornaria ainda mais tenebroso no século seguinte.

Faz tempo. Neste 6 de maio nascia Sigmund Freud em Freiberg, atual Pribor na República Tcheca, 162 anos atrás. Uma das personalidades mais impactantes da história, deu os primeiros choros sob o Império Austro-Húngaro.

Quatro anos após o nascimento do menino, a família muda-se para Viena. Amália, mãe do pequeno Freud, era a terceira esposa de Jacob. O pai era comerciante e a vida por lá era bem simples.

O nome de batismo registra Sigismund Schlomo Freud, sendo que em 1877 e aos 21 anos de idade, resumiria a assinatura para Sigmund Freud. Nessa época ele estava na Faculdade de Medicina de Viena e já totalmente ligado em neurologia.

Formou-se em 1882 e foi trabalhar com Jean Martin Charcot, com quem aprendeu a hipnose. E foi em 1895, tendo 39 anos, que começou a mexer com o mundo ao publicar o ‘Estudo sobre histeria’.

A partir daí ele deixa a hipnose como principal ferramenta e passa a desenvolver uma técnica que seria o fundamento da psicanálise, a livre associação – com o paciente falando sobre qualquer coisa que aflorasse à mente.

Já era um nome sob discussão acadêmica quando, aos 43 anos, publicou ‘A interpretação dos sonhos’. Começava, definitivamente, a reviravolta na classe científica. Chega o século XX e ele consegue formar um grupo de estudiosos que criaria a Sociedade Psicanalítica de Viena. Em 1908, Freud compartilhava com Karl Abraham, Sandor Ferenczi, Ernest Jones, Alfred Adler e Carl Jung – esses dois últimos romperiam com o mestre.

O universo de discussão de Freud era judaico, pois vinha desse berço; Jung era protestante e a expectativa era que essa outra visão expandisse a psicanálise. Quando o discípulo falou do rompimento e que seguiria por outro caminho, Freud sentiu muito essa perda.

A psicanálise de Freud seguia qual bisturi num raciocínio cortante e focado no desejo, enquanto o suíço Jung, pela influência protestante, agregaria conteúdos místicos ao divã.

O mundo vivia a I Guerra e Freud sofria também a perda da filha Sophie – vítima de gripe. Esse conflito resultou na publicação de ‘O Ego e o Id’, em 1923 – tinha 67 anos.

A Europa via o surgimento do nazismo e, em 1937, livros do mestre eram queimados e demonizados pela revolução nacionalista que varria a Alemanha. Com Hitler capitaneando o terror, instalou-se perseguição aos judeus e Freud foi convencido a fugir para a Inglaterra.

Aos 82 anos em 1938, sofria na velhice muito mais pelo câncer agressivo e que lhe afligia grande dor. Muito abatido e fraco, viveria apenas mais um ano em solo britânico, sucumbindo em Londres, em setembro de 1939.

Dos seis filhos com Martha Bernays, a caçula Ana se tornaria a discípula que manteria a bandeira da psicanálise hasteada. Até hoje Freud é discutido como se vivo fosse. Segue infindável corrente sustentando a psicanálise ortodoxa, como há oposição fincada em novas teorias da neurociência.

Mas é fato indiscutível que Freud é um divisor de águas, a mão que abriu o portal da psicanálise à livre associação e que apresenta o divã como um projetor dos conflitos da alma.

 

O rei no divã

A livre associação que Freud lançara lá nos primórdios da psicanálise, segue hoje como fundamento e base para tantas outras iniciativas e adaptações.

E o que é estar num divã e falar livremente? É um libertar da alma, abrindo acesso aos conflitos do inconsciente. O profissional escuta o que é dito mas vai além, escuta o que não é dito.

A canção do rei Roberto Carlos trata exatamente disso, de um choro angustiado, de tormentos que maltrataram uma criança e que seguem afligindo aquele homem no divã.

A música resume uma sessão psicanalítica com o rei falando da vida modesta numa casa com varanda. Composição com Erasmo Carlos, ‘O divã’ fala da casa com varanda, da vida humilde mas feliz; de uma festa, de um apito de trem, do sangue no linho branco…

Roberto é a criança socorrida. Há informações que quando do acidente, um jovem chamado Renato Espínola e Castro foi quem o socorreu; tirou o paletó, amarrando-o na perna para estancar o sangue.

No meio daquela dor e impacto, a visão do menino marcava os passos de quem o levava no colo, o sangue no linho branco. E no divã de Freud o rei canta que nesse momento de socorro a criança também olhava para o céu e sentia um tipo de conforto – esperança de um dia tão distante, pelo menos por instantes encontrar a paz sonhada.

E como Freud explora a associação livre, o rei diz o que pensa: Eu venho aqui, me deito e falo pra você que só escuta; não entende a minha luta. Afinal, de que me queixo? São problemas superados…

Mas nada é assim tão fácil, pois o mesmo Roberto Carlos se denuncia em seguida, deixando claro que tudo isso segue: Mas o meu passado vive em tudo que eu faço agora; ele está no meu presente. Mas eu apenas desabafo confusões da minha mente.

Sim, a fantástica e abençoada psicanálise está aí, firme e forte desafiando as queixas do mundo. Quando Freud nasceu, 162 anos atrás, nascia o divã. E nessa música de Roberto Carlos, o conteúdo pode ser lido conforme a vivência de cada um que a ouve.

Para o rei, o cenário é a casa, a festa, o apito, o sangue no linho branco. A casa da infância é lembrança coletiva compartilhada; festa também é uma vivência que todos contam.

Já o apito, som que ainda faz doer a alma do rei, pode ser aquele momento que grita na história de cada um. E apesar dessa angústia e sofrimento, do sangue derramado nas batalhas da vida, há sempre um socorro, há sempre um linho branco…

 

O DIVÃ
– Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1972

 

 

Banalização do divã

Hoje há várias vertentes acadêmicas e atendendo demandas específicas. Assim como a medicina partiu da clínica geral para ramificar-se a órgãos e áreas particulares do corpo, profissionais da mente desenvolveram técnicas que redirecionam a psicanálise.

Mas o fundamento segue, o protocolo freudiano é imutável. O perigo de hoje é a mistificação banal porque há dezenas de escolas dando títulos de psicanálise até a pessoas sem formação acadêmica. Em movimentos religiosos há líderes falando em psicanálise cristã ou gospel, apelando para arcanjos e para Jesus mas sem formação científica.

Sobre o Autor

Marcio Silvio

Marcio Silvio

marciosilvio@qgnoticias.com

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