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MÚSICA DA HORA: início do regime militar e o quase hino nacional de Dom & Ravel

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MÚSICA DA HORA: início do regime militar e o quase hino nacional de Dom & Ravel
abril 01
16:25 2018

1º de abril de 1964. O governo João Goulart era derrubado e os militares tomavam posse de Brasília para um regime que iria até março de 1985. Nesse período reinou o Ato Institucional Número 5, que por 10 anos foi a chancela para todas operações de repressão ao esquerdismo.

Em 1970 o regime estava no pico, a população brasileira contava cerca de 120 milhões e esse número entrava em campo para festejar o tricampeonato mundial. Além da música do tri o Brasil tinha praticamente o segundo hino nacional, hit que sacudia os corações na voz da dupla Dom & Ravel.

E nesse clima de seleção voltando do México com o troféu da Copa do Mundo pela terceira vez, com as cores do bandeira por toda parte numa festa espetacular, nem parecia que o País estava fardado.

 

Brasil, ame-o ou deixe-o

Slogam belíssimo que virou bandeira do regime justificando a segurança nacional contra ideologias comunistas. E somete três décadas após o fim desse comando político que as Forças Armadas admitiram o conteúdo violento e fatal do regime.

Isso foi durante a Comissão Nacional da Verdade, em 2014, que recebeu texto do ministro da Defesa, Celso Amorim, reconhecendo violação de direitos humanos naqueles 21 anos de nacionalismo.

Mas ainda não há uma posição oficial das Forças Armadas sobre isso, mesmo com os registros contando 434 vítimas fatais e desaparecidas no período.

 

A partir de 1960

O presidente João Goulart iniciava a década com as rédeas curtas como presidente, já que o país estava sobre o parlamentarismo. Mas dois anos depois o presidencialismo voltaria e Jango passaria a mostrar mão forte.

Tinha política voltada para a reforma agrária e era rodeado por pensadores de esquerda que batalhavam pela estatização de várias empresas do sistema financeiro.

Foi nesse período que o brasileiro começou a fazer piadas sobre a possibilidade de o país migrar para o bloco comunista da América Latina, via Cuba.

Mas o fato é que essa piada não tinha nenhuma graça. O presidente Jango não sabia dizer o contrário e a cada ato ele se emaranhava mais diante da opinião pública. E tudo piorou quando a mídia comprou a briga pela contrarrevolução.

A imprensa nacional estava sob as mãos dos generalatos Roberto Marinho, Octávio Frias de Oliveira e Júlio de Mesquita Filho; sim, o político que arvorava veementemente essa bandeira era Carlos Lacerda e contando com apoio de Juscelino Kubitschek. O que essa contrarrevolução queria? Clamava pelas Forças Armadas.

Atendendo aos apelos, no final de março deu-se início a mobilização militar e, em 1º de abril de 64, o presidente Jango embarcava para exílio no Uruguai.

 

Golpe militar ou golpe civil?

Certo, os militares tomaram o poder, só que toda essa ação foi obra composta por governadores e grande massa política, todos denunciando o perigo do Brasil nas mãos de Jango – a contrarrevolução alertava que o país caminhava para um alinhamento comunista com Cuba.

A ilha de Fidel Castro estava há poucos anos como parceira da União Soviética e, portanto, era o grande fantasma que fazia ferver os discursos de quem era contra Jango.

Claro que havia militares dando apoio a esse levante politico, mas é bom dizer que os militares não estavam nos quarteis em 31 de março para, de repente e do nada, marcharem para Brasília.

Não foi assim, do dia para noite. O golpe foi muito bem costurado pela política civil, que usou as Forças Armadas como ferramenta para a derrubada de Jango.

Tanto que os militares discursavam que estavam assumindo provisoriamente e por pouco tempo, até que tudo fosse normalizado.

No mais, já corria solto que guerrilheiros cubanos estava treinando paramilitares de esquerda no Brasil, visando uma poderosa revolução pelo comunismo. Isso tudo fazia o Brasil fervilhar.

Certo, e se tem Cuba de um lado qual país que sempre surge no cenário como salvador da pátria? Os Estados Unidos acompanhavam com alto interesse e cuidou de estender a mão para dar aquele suporte contra a ameaça soviética no Brasil.

 

Cenário internacional

Duas décadas após a II Guerra o mundo vivia a Guerra Fria. Por isso os olhos dos EUA por aqui, contra o emergente golpe fa URSS. Esse era o cenário, todos contra a expansão do comunismo.

E por que o presidente Jango ganhou a antipatia dos militares? Porque ele comprou a briga da Revolta dos Marinheiros, um protesto nacional que dos de baixa patente que pediam aumento salarial e direito ao voto, por exemplo.

Quando Jango se posicionou a favor da Revolta dos Marinheiros, acendeu a ira da cúpula militar no País e, portanto, literalmente cutucara a onça com vara curta.

Lembrando que Jango, quando vice de Jânio Quadros, estivera na China, outro berço comunista; no mais, foi nesse governo que houve a histórica condecoração brasileira ao argentino Ernesto Che Guevara, então alta patente do governo cubano.

Não é preciso dizer que os Estados Unidos estava pê da vida com o Brasil. A partir daí começou-se a costurar a campanha anticomunista na Escola Superior de Guerra e os políticos contra Jango elegeram as Forças Armadas como escudo representativo.

Jango não era o homem que os Estados Unidos queriam, um político de centro mas com alianças de esquerda. No mais, o avanço comunista era ameaça iminente e se o Brasil não ficasse esperto seria pintado de vermelho.

E foi com um pacotão de decretos sociais em março de 1964 que o presidente Jango apertava o gatilho contra si mesmo. Ele privatizava refinarias, liberava áreas de terras, mexia na ferrovia, sim, sacudia o país naquela canetada.

Os políticos contra Jango viram nisso a deixa para denunciá-lo como esquerdista e camarada de Cuba. Então houve aquela articulação para cassar o presidente em nome da segurança nacional.

Na farda estelar daquele momento, os mais extremos entre os militares era o general Costa e Silva, que representava a linha dura do comando; do outro lado, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco representava a classe militar que não apoiava o regime ostensivo.

Tanto que o golpe não pesou apenas sobre civis, já que muitos militares que defendiam a moderação e se posicionavam contra, também foram cassados com prisões e expulsões.

 

A imprensa

Os Diários Associados eram um pool extraordinário que contava com os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e, também, Rede Globo.

Portanto, toda imprensa brasileira apoiou o golpe e aplaudiu a derrocada de João Goulart. Sim, havia um jornal contra esse festival, o Última Hora. Foi contra o sistema e isso causou o exílio de Samuel Wainer, então diretor.

Quer saber da manchete do JB em 2 de abril e imediatamente ao golpe? “Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade”. E na linha que seguia, o jornal fechava: “A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas” – referência irônica a Jango.

E o jornal O Globo mandava: “Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos.”

E leia O Estado de Minas: “Ressurge a Democracia! Viva a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente das vinculações políticas simpáticas ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é de essencial – a democracia, a lei e a ordem.”

 

Os militares presidentes

Começou com Ranieri Mazzilli em 1964, na sequência e até 1967 foi Humberto de Alencar Castelo Branco, até 69 com Artur da Costa e Silva; até 1974 foi o governo de Emílio Garrastazu Médici, tendo Ernesto Geisel até 79 e fechando com João Figueiredo em 1985.

Essas décadas destacam-se pela tensão da Guerra Fria envolvendo o mundo todo e quase mesmo chegando a um confronto quente; o regime militar no Brasil foi um combustível a mais nessa briga entre Estados Unidos e União Soviética.

Por fim e fechando essa página histórica, vem a desocupação militar de Brasília via o Diretas Já, culminando com o governo sendo retomado por civis.

 

Eu te amo, meu Brasil!

Com o regime bombando nos anos 70, surge um hit que quase vira um hino nacional. A dupla Dom & Ravel lançaram ‘Eu te amo meu Brasil’ no início da década.

Os cearenses suscitaram críticas ferozes da classe artística e também da política que combatia os militares, todos acusando-os de serem filhotes da ditadura.

Dom era Estáquio Gomes de Farias, que morreu em 2000, vítima de câncer de estômago; Ravel era Eduardo Gomes de Farias, falecido em 2010, infarto.

Ravel teve esse nome batizado por um professor que via nele um grande talento musical – o nome vem de Maurice Ravel, compositor e pianista francês (1875-1937).

Quando lançaram o hit, o governo era Emílio Garrastazu Médici. A música empolgava os militares e logo estava nas escolas como hino de orgulho nacional. Essa balada também foi gravada pelo conjunto Os Incríveis, mas o estouro mesmo foi com a dupla.

E tudo calhou mesmo, já que no México o Brasil ganhava o mundo com Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson, Jairzinho… A seleção canarinho trazia o troféu Jules Rimet definitivamente à galeria nacional.

Assim, de um lado a glória do futebol e do outro esse sucessão de Dom & Ravel enquanto o país vivia sob a lina extrema do AI-5. Na época, o slogam ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’ era a campanha federal que brilhava nas escolas, nas camisetas da moçada, nos vidros dos carros…

Agora, aprecie o ‘Eu te amo meu Brasil’, tendo como cenário aquele período histórico do país. A dupla Dom & Ravel apontava a canção para o momento da Copa do Mundo; no entanto, a esquerda bateu contra, assim como artistas e intelectuais. Apesar disso, caiu na boca do povão.

 

 

Sobre o Autor

Marcio Silvio

Marcio Silvio

marciosilvio@qgnoticias.com

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