MÚSICA DA HORA: Auschwitz na batida tensa e feroz de Uganga

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MÚSICA DA HORA: Auschwitz na batida tensa e feroz de Uganga
maio 20
07:04 2018

Estamos em 20 de maio de 1940 e o implacável regime nazista avança na guerra insana pela supremacia ariana. No sul da Polônia, uma área antes do exército nacional como base da artilharia foi redesenhada pela engenharia do III Reich.

Com trabalho escravo e praticamente sem interrupção, em questão de semanas o Auschwitz 1 é levantado e, portanto, tem o grande portal aberto oficialmente.

Tudo está conforme o projeto Solução Final, um tratado de aniquilação racial ímpar na história moderna. Conforme a máquina de guerra avança anexando a Europa, penitenciárias assim são construídas em nome da limpeza racial.

Auschwitz é um complexo de três campos e com o primeiro deles sendo inaugurado nessa data de 1940. Essa região polonesa é Oświęcim, mas há tempos os alemães falavam dela como Auschwitz. Quando da ocupação em 1939, tudo foi pisoteado para dar lugar ao complexo.

À frente desse colosso alemão o generalíssimo Heinrich Himmler e que construiria outras duas prisões que receberiam condenados de toda parte da Europa ocupada.

Quando do Julgamento de Nuremberg, registrou-se testemunho de Rudolf Höss, primeiro comandante do complexo e que deu números espantosos da operação nazista – mais de 3 milhões executados, sendo que atualmente a contagem desce para 1,3 milhão.

O martírio de Auschwitz romperia por longos cinco anos até a libertação pelos soviéticos em 27 de janeiro, na história como Dia Internacional da Lembrança do Holocausto.

Esse cenário de morte é hoje uma testemunha fantasmagórica recebendo milhões de turistas todo ano, passando sob o tenebroso portão de ferro onde lê-se ‘Arbeit macht frei’ – O trabalho liberta.

Para construção desse mostro, mais de 17 mil moradores foram despejados pelo regime nazista que tomou conta dos 40km² e com 300 judeus locais para trabalho diuturno.

Toda essa extensa área estava sendo isolada pelo regime que a mapeava como Zona de Exclusão. Logo após entrar em operação, Auschwitz recebe o primeiro comboio de presos, todos criminosos alemães; no mês seguinte chegariam 728 poloneses, sendo 20 judeus.

Com a população condenada crescendo dia a dia, logo vê-se a prisão com vítimas setorizadas e identificadas conforme a sentença – marca verde para os criminosos comuns, vermelha para os presos políticos e amarela para os judeus.

Nos porões de Auschwitz, celas especiais recebem prisioneiros rebeldes. Uma delas, a vertical, é um espaço com pouco mais de 1m² e onde quatro são jogados para ficarem ali amassados e em pé.

Outra cela desse porão é a da fome, uma condenação a longo prazo porque o coitado que é lançado para lá vai morrendo aos poucos por não ter comida ou água.

A cela escura é outro assombro da tortura nazista, um buraco negro e sólido onde o preso tem apenas uma pequena fresta na parede onde pode respirar.

Mas dependendo da gravidade da condenação o preso tem os braços amarrados e suspensos, ficando pendurado por dias até que as clavículas se rompam. E para agravar ainda mais a tortura na cela escura, os soldados acendem velas e, assim, aos poucos o condenado vai entrando em colapso.

Mas esse tipo de tortura isolada era insignificante e preocupava a indústria nazista. Somente em 3 de setembro de 1941 que tem início a morte em massa com 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 150 poloneses sendo mortos num dos porões do bloco 11 – começava a era do gás Zyklon-B, pesticida à base de cianureto.

O passo seguinte foi a elaboração de câmara de gás eficiente e crematório para eliminação dos corpos. Essa câmara no porão de Auschwitz é um espetáculo de horror aberta à visitação, bem como o forno.

 

O discurso na câmara de gás

Há registro da saudação de Franz Hoessler, da cúpula de Auschwitz a um grupo de judeus gregos. Todos são alinhados à porta da câmara e esperançosos pelos bons tratos. Então chega o administrador, sorridente e com olhar amigo. E assim, Franz Hoessler saúda a todos:

– Em nome da administração eu lhes dou as boas-vindas. Isto não é uma colônia de férias mas um campo de trabalho. Assim como nossos soldados arriscam suas vidas na frente de combate para conquistar a vitória para o Terceiro Reich, vocês terão que trabalhar aqui para o bem-estar de uma nova Europa. Como vocês irão desempenhar essa tarefa depende apenas de vocês. A chance existe para cada um de vocês. Vamos cuidar de sua saúde e também ofereceremos trabalho bem pago. Após a guerra, vamos avaliar todos de acordo com os seus méritos e tratá-lo adequadamente.

Agora, por favor tirem suas roupas. Pendurem as roupas nos cabides que nós providenciamos e por favor lembrem-se de seu número (no cabide). Depois de seu banho haverá uma tigela de sopa e café e chá para todos. Oh, sim, antes que eu me esqueça: depois do banho por favor tenham seus certificados, diplomas, boletins escolares e outros documentos à mão para que possamos empregar todos de acordo com seu treinamento e habilidade.

 

Som massacrante

Do portão famigerado aos porões de Auschwitz, tem esse sonzaço do grupo Uganga, verdadeira metralhadora contra esse monstro que hoje é um fantasma na memória coletiva.

Esse som é uma porrada do começo ao fim, sendo que para esse trabalho o grupo esteve lá no local dos fatos. O Uganga estava em tour pela Europa e o vocalista Manu Joker cuidou de colocar Auschwitz no roteiro.

“A sensação de estar num local onde, no auge das execuções 20 mil pessoas eram assassinadas por dia, é algo inesquecível pra mim e com certeza pros caras da banda. Como entender a real motivação daquilo tudo?”, questiona Joker.

Voltando do tour que rodou Alemanha, Bélgica, Suíça. República Tcheca, Portugal, Espanha e Polônia, o Uganda mandou o álbum ‘Opressor’ e com o nocaute que é essa faixa ‘O Campo’. E o compositor Manu Joker justifica: “A motivação em escrever a letra veio tanto da minha visão histórica quanto da nossa percepção enquanto visitantes naquele lugar.”

 

Uganga

A banda é mineira de Monte Carmelo, surgiu em 1993 e tem o vocal de Manu Joker que forma com Christian Franco (guitarra), Thiago Murcego (guitarra), Raphael Ras (baixo e vocal) e Marco Henriques (bateria e vocal). O som tem raiz em Black Sabbath, Anthrax, Public Enemy, Motorhead, Jorge Ben, Bob Marley, Discharge, Celtic Frost, Metálica, Exodus, Agnostic Front, Slayer e Pantera.

Essa estrada já conta duas décadas de som tenso e o Uganda é mesmo uma das referências brasileiras nesse palco – tanto que em 2014 o álbum ‘Opressor’ foi eleito o melhor do rock nacional.

Quando esses mineiros se juntaram, lançaram-se como Ganga Zumba (tio de Zumbi dos Palmares). Manu Joker diz que ganga significa negro no dialeto remoto e que a letra U foi adicionada representando união – porque a banda também tem influência da música negra.

 

Sobre o Autor

Marcio Silvio

Marcio Silvio

marciosilvio@qgnoticias.com

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