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Mestre da 2ª geração de Ip Man e o primeiro discípulo no Brasil: uma história como nos filmes

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Mestre da 2ª geração de Ip Man e o primeiro discípulo no Brasil: uma história como nos filmes
abril 29
17:13 2018

A partir dos anos 60 o Brasil recebia vários mestres de artes marciais chinesas. Mas levou algum tempo para que o misterioso kung fu fosse aberto por aqui. Naturalmente que o cinema foi a chave desses portais com o mito Bruce Lee nos anos 70.

E nessa década chegava em São Paulo um jovem de Hong Kong. Trazia no olhar o fervor da chama marcial e o sonho de uma vida feliz no estrangeiro.

Kan Wing Yat logo foi convidado a mostrar o que sabia para a comunidade chinesa em São Paulo. No bairro da Liberdade deparou-se com todas as técnicas de kung fu trazidas pelos compatriotas e até sentiu-se em casa.

No entanto, tudo que aprendera e a forma como via as artes marciais não condiziam com o sistema de então. O fato é que mestre Kan Wing Yat frustrou-se com o que viu e decidiu baixar a guarda e calar o conhecimento.

Ele vivia as artes marciais como filosofia e jamais como um produto de mercado. Para ganhar dinheiro ele foi trabalhar como comerciante e não demorou para abrir restaurante próprio.

Fazer dinheiro com o kung fu, jamais. Mas quem era esse homem intrépido, resoluto e que teimava contra o sistema marcial que se estabelecia no Brasil?

 

Luta contra três ladrões muda a história

Agora o Wing Chun é bem popular, estilo imortalizado no cinema pelo também imortal Bruce Lee. E na história do Pequeno Dragão o Wing Chun reverencia o mestre Ip Man, personalidade que ganhou trilogia espetacular com Donnie Yen.

Pois bem, Kan Wing Yat vem desse berço, foi discípulo de Chow Tze Chuen, mestre formado diretamente por Ip Man. Portanto, da segunda geração do grande mestre.

Ele guardava consigo esse Wing Chun de raiz; mais que isso, todo conteúdo filosófico e o código moral dessa rica arte de luta. No entanto, toda essa riqueza não teve lugar em São Paulo e no círculo do kung fu que ele encontrou ao vir de Hong Kong.

Agora dono de restaurante, Kan Wing Yat não fala mais em Wing Chun e decide mudar de cidade e de estado, indo para Pernambuco. Na capital, passa a ser conhecido apenas como mais um chinês comerciante e muito trabalhador.

Mas a violência acabaria mudando isso. Como era empresário, também chamou atenção de bandidos e num dia ele viu-se diante de três homens que invadiram a casa. Os assaltantes estavam armados e colocavam a família Kan em risco.

Nesse momento tenso ele sente que precisa fazer alguma coisa… e reage. O mestre entra em combate contra os ladrões. Foi anulando um a um e apavorando com os golpes fatais do kung fu. Ele manda um para o chão e se concentra nos outros dois.

Acontece que esse que caíra não estava totalmente abatido, recupera-se e atira, atingindo o mestre. Nesse ínterim, um bandido já estava morto, os outros fogem desesperados e o mestre é socorrido em estado grave.

Recuperou-se. E nesse momento ele passa a valorizar ainda mais a vida e o Wing Chun. Mas o que fazer e como passar esse conhecimento se no Brasil a arte marcial é apenas mais um comércio?

 

Um jovem aprendiz, 6 meses de espera

Para se recuperar mais rapidamente, Kan Wing Yat retoma o Wing Chun mas em segredo, portas fechadas. Apesar desse sigilo, um certo rapaz fica sabendo de um chinês que treina batendo num boneco de madeira…

Desde os 8 anos de idade que o jovem Álvaro André vive as artes marciais. Praticante de karatê e jiu-jítsu, era apaixonado por lutas e aquela informação invadiu-lhe de curiosidades. Determinado a descobrir do que se tratava, foi até o restaurante.

Nada de academia, tudo fechado. Mas informando-se por ali soube mesmo do dito chinês e do boneco de madeira. Álvaro André continua a busca até que num sábado consegue encontrar e espionar aquele homem praticando kung fu.

O jovem fica empolgado com as técnicas, ainda que vendo de longe. E a história de Álvaro André com o kung fu começa assim, absolutamente à distância. E todo sábado naquele horário, lá estava o rapaz vendo o treino misterioso do chinês.

A presença dele tornou-se rotina e assim foi por seis meses. Sim, meio ano de paciência, perseverança e determinação até que num certo dia o mestre some da cena de treino para surgir à frente dele – Álvaro André vê a porta se abrir e ouve o convite para ir treinar – estava aceito como discípulo.

Como nos filmes clássicos de kung fu, essa história do pernambucano Álvaro André fala da tradição e de todos desafios de um aprendiz para ganhar a confiança do mestre.

 

Família Kan

Como já tinha base de luta tudo ficou mais fácil para ele. Mas além do treino árduo para avançar no Wing Chun, teve que vencer barreiras dentro da restrita comunidade chinesa.

Começou a treinar em 2003 e por várias vezes foi levado pelo mestre à China para ser observado e avaliado por outros mestres, até que em 2010 teve o reconhecimento como shifu (mestre).

No sistema Wing Chun da tradição Ip Man, tudo é família. Desde dos primeiros treinos e até agora, mestre Álvaro André chama Kan Wing Yat de pai; sim, e ele faz mesmo parte da família como filho ocidental do Wing Chun.

Além de receber o conhecimento do mestre até então anônimo nas artes marciais aqui no Brasil, o shifu recebeu nome de batismo como herdeiro do família, Kan Yii Cheng. A tradução desse nome representa o valor dessa jornada de Álvaro André e como ele é visto pelos chineses. O nome significa algo como: alguém que é capaz de guardar um tesouro.

Para o mestre Kan Wing Yat o Wing Chun é exatamente isso, um tesouro. Ele havia fechado esse conhecimento por não encontrar no Brasil um coração puro o suficiente para recebê-lo. Foi preciso um risco de morte para mudar a história e colocar Álvaro André às portas do mestre.

Hoje, o shifu tem a escola que ostenta o nome da Família Kan. O Dojo Luas fica em Afogados, Recife. Além do kung fu e por ter base em outras artes marciais tradicionais, o jovem mestre também divulga uma técnica à parte de defesa pessoal e corre o mundo mostrando o Kyusho Jyutsu Brazil.

Ainda sobre o Wing Chun, mestre Álvaro André que é Kan Yii Cheng, repete o que aprendeu do grande mestre: “Kung fu não é sangue, é coração; esse é meu tesouro e isso não é para qualquer um. O Wing Chun é um bem da humanidade e nós somos apenas uma porta.”

 

Mestre Álvaro André:

Nessa vida só há três lugares: ora sabemos menos e pedimos humildemente que nos ensinem; ora somos iguais, então temos o prazer da companhia para propagarmos o conhecimento; ora sabemos mais e, nesse momento, com amor e gratidão devemos orientar para que essa via (arte marcial) nunca pereça.

 

 

Sobre o Autor

Marcio Silvio

Marcio Silvio

marciosilvio@qgnoticias.com

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