Descoberta de ossadas relembra mapa de uma São Paulo cruel

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Descoberta de ossadas relembra mapa de uma São Paulo cruel
dezembro 07
15:36 2018

Enquanto ossadas de um período que remonta a 300 anos surgem na São Paulo do século XXI pelas pás da arqueologia, um outro cenário aparece ante o olhar paulistano e feito bruna fantasmagórica.

A área da Liberdade no centro da Capital, era um deserto insólito e destinado aos párias da sociedade. Estamos sob o regime escravocrata nos anos de 1700 e não temos nenhum conhecimento que ali são desovados marginais, criminosos e escravos.

Em 1763, a notícia que toma conta é a inauguração da I Casa de Ópera na rua São Bento. nesse período, os políticos paulistas travam batalha jurídica contra o Rio de Janeiro até que dois anos depois festejam a soberania como Capitania independente.

Período com a saúde em risco por conta de epidemia de icterícia, mas a política bombava com São Paulo expulsando os jesuítas – era o fim da Companhia de Jesus por aqui.

Nesse mesmo Largo do Colégio, sempre em turbilhão, temos festa em 1770 com a inauguração da Academia dos Felizes de São Paulo – a academia de letras.

Para quem ainda não se localizou nesse mapa, estamos no atual Pátio do Colégio, que até recentemente era quartel dos jesuítas. O pátio, sabemos, é a primeira edificação da história paulistana.

Outro lembrete importante é que tudo por aqui ainda é cem por cento Portugal. E chega a notícia de festa imperial pelo nascimento do Pedro I. Sim, estamos em outubro de 1798 e o que sabemos é que as rédeas da corte pesam forte sobre nossa economia e política.

Mas na virada do século a chapa começa a esquentar para os portugueses. A partir de 1821 os políticos nativos do Brasil começam a tocar o tamborim com chamadas separatistas. 

Aquele citado Pedro I era um infante de 24 anos quando usou a espada para cortar o cordão umbilical do Brasil com a corte portuguesa. Sim, agora vivemos um clima de alta tensão e nossas ruas paulistas tornam-se perigosas, ainda que festivas.

Pelourinho paulista e enforcamentos

Voltando à Sampa de agora e com as escavações da arqueologia na Liberdade, os ossos que são ressuscitados dessa terra esquecida falam de todo aquele período.

São personagens destinados ao limbo da história por não fazerem parte da sociedade, especialmente os escravos que seguiriam sob os açoites até maio de 1888, quando da extinção do regime.

Mas durante séculos de supremacia branca, o genocídio oculta-se sob o chão brasileiro; o que está sendo resgatado agora na Liberdade é uma pontinha da história cruel da nossa política.

Ali, na hoje rua Galvão Bueno, tudo era um grande aterro destinado aos infelizes de São Paulo. Muitos corpos desovados lá eram de bandidos, outros tantos eram de indigentes e a maioria era de escravos.

Próximo à Galvão Bueno está a Capela dos Aflitos, inaugurada em 1775. Nessa época os mortos eram enterrados na área das igrejas e essa capela recebia os do grupo citados acima. Por conta disso, eis o nome Cemitério dos Aflitos e que deu conta desse serviço até a inauguração do Cemitério da Consolação em 1858.

A partir daquele ano a área da igreja na Liberdade foi limpa dos corpos, o cemitério foi fechado e hoje só resta a Capela dos Aflitos como testemunha. Voltando ainda sobre o Cemitério da Consolação, no ano em que foi aberto São Paulo vivia outro momento importante com os primeiros serviços de transporte público; outra grande novidade era o calçamento da cidade. Portanto, a velha Sampa começava a sair do estado primitivo.

O grande propulsor do crescimento paulistano era o café. Até então, toda produção nascida no Vale do Paraíba era levada para o porto do Rio de Janeiro; mas com a região oeste explodindo, São Paulo investe no porto de Santos e muda o comércio.

De volta à arqueologia e as ossadas? Já sabemos que o mapa daquela São Paulo de 1779 instalava o primeiro cemitério público onde hoje é a Galvão Bueno, rua da Glória e Estudantes. E quantas fotos tiramos na Praça da Liberdade, não é? Mas naqueles anos era um local de morte por ser palco de execuções por enforcamento.

Com o fim da pena de morte o tétrico Largo da Forca foi rebatizado Praça da Liberdade. Mas conta a lenda que nesse tempo os paulistanos devotos veneravam o nome de Chaguinhas, dado como santo por ter sido condenado à forca e porque a corda se rompeu na primeira execução; ele foi para a segunda e a corda também se rompeu, o mesmo acontecendo na terceira tentativa de execução…

Diante disso, todo mundo acreditava que só poderia ser por milagre e, assim, o Largo da Forca se transformou num ponto de romaria com fiéis pedindo bênçãos desse santo popular nascido Francisco José das Chagas. Chaguinha foi condenado à morte por ser um tipo rebelde que teria participado de um levante militar em Santos.

E vizinho da Praça da Liberdade tem o Largo Sete de Setembro que, naqueles anos tipo olho por olho, era o tenebroso Largo do Pelourinho. Bem, o nome já diz tudo.

Em meados de 1800, essa São Paulo evoluindo fervorosamente e se debatendo para romper grilhões opressores tinha 23.834 habitantes, sendo que cerca de 30 por cento desse total era população escrava.

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Sobre o Autor

Marcio Silvio

Marcio Silvio

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