27 de outubro de 2026
Carcaça de prédio abandonado no centro de Osasco, 10 anos de abandono por trama política.

Osasco: trama política e carcaça de milhões

Onze andares de uma obra paralisada há dez anos em Osasco, carcaça de milhões de reais confrontando uma cidade que posa entre as mais ricas do Brasil. O cidadão parece não se incomodar com esse cenário de abandono, também deve passar batido quanto a história que vem de 2010.

O QG Notícias mergulha nessa linha do tempo para trazer que essa carcaça não é resultado de conflitos empresariais apenas, mas que expõe uma trama que vem gerando sangria de milhões ao cofre municipal.

Ao lado da estação da CPTM no centro, o prédio abandonado eleva-se no terreno que era da histórica Hervy, primeira indústria de Osasco. No limbo do descaso desde 2016, essa carcaça é tipo zumbi arquitetônico que deve assim continuar.

A narrativa comum sobre esse estado de coisa denuncia a iniciativa privada como vilã do caos. Mas esse apontamento embaça a lupa histórica, pois nessa guilhotina há mãos partidárias. Sim, Osasco paga o preço por uma trama política.

2010-2016

Estamos em 2010 e com Osasco dobrando sob governo do PT – Emidio de Sousa cumpria segundo mandato, desde 2005. Então ele assina a Operação Urbana Consorciada Tietê 2, megaprojeto para transformar o esquecido e lendário bairro Bonfim numa área nobre.

No entorno do terreno que em 1889 era propriedade do ferreiro português Maneco (Manoel José Rodrigues), seria levantada a Igreja Bom Jesus do Bonfim no final dos anos 20 e que segue como testemunha histórica na Rua André Rovai.

A igreja precede a Catedral de Santo Antônio, teve as obras paralisadas e seria concluída somente após a inauguração da matriz em 1931. E sim, o bairro Bonfim ganhou o nome por causa da igreja.

O primeiro impacto do Tietê 2 foi em 2012, quando o prefeito Emidio anunciava demolição de três prédios fantasmas, cada um com doze andares totalizando 200 apartamentos numa área de 19 mil metros quadrados no Bonfim.

O Residencial Nova Grécia teve início em 1974 e seria, por décadas, cenário de caos tal qual é hoje a carcaça no centro. Em maio de 2012 o prefeito Emidio iniciava a demolição, processo que seria concluído na gestão do sucessor Jorge Lapas.

E assim como deixou o Nova Grécia encaminhado, Emidio deixou a Operação Urbana Consorciada Tietê 2, projeto que abraçaria a construção da nova sede da prefeitura e da Câmara Municipal no terreno que era da Hervy, fundada em 1884 como Cerâmica Industrial de Osasco.

Eleito para dar sequência ao terceiro mandato do PT, em 2014 Jorge Lapas iniciou a obra demolindo o que restava da Hervy. Toda aquela área do Bonfim seria urbanizada e revitalizaria o centro da cidade – previsão de entrega, três anos.

A prefeitura assinou com GBX Tietê Empreendimentos e Participações e que posteriormente seria Estação Osasco Desenvolvimento Imobiliário. A versão corrente é que a empresa quebrou, que causa rombo municipal de aproximadamente R$6 milhões.

Então chegamos em 2016, ano eleitoral e quando o Tribunal de Justiça de São Paulo barra a construção. O que aconteceu e qual a justificativa?

LAPAS DEIXA O PT

Dando sequência ao Tietê 2 e com as obras do novo centro municipal mexendo no visual da cidade, Jorge Lapas, eleito prefeito pelo Partido dos Trabalhadores em 2012 e para o terceiro mandato da legenda, abala o cenário político ao anunciar migração para o Partido Democrático Trabalhista em março de 2016.

Três meses depois, em agosto, o TJSP barraria o legado encaminhado por Emidio de Souza em 2012. A justificativa da ação era que a prefeitura estava irregular por permutar com a empreiteira.

Jorge Lapas buscava reeleição e, em 31 de agosto com Osasco em campanha eleitoral fervendo, chega o impedimento do TJSP e muito celebrado por vereadores de oposição – destaques para Mário Luiz Guide/PSB, Dr. Lindoso/PSDB e Rogério Lins/PTN (atual Podemos).

Principal rival de Lapas, o vereador do PTN sairia vencedor nas urnas, dobraria mandato como prefeito e, nas eleições de agora, festejou vitória para deputado estadual. Ainda sobre oposições na Câmara Municipal em 2016, vozes do PT também romperam contra o ex-companheiro.

E SE DESSE PDT EM 2016?

A oposição sabia que a Operação Tietê 2 poderia reeleger Jorge Lapas, então o tiro foi certeiro – obras paralisadas em agosto, chances zero de retomada. Isso se daria em 2018 com Rogério Lins, mas não avançaria por falta de interesse mesmo.

Por fim, em 2020 o projeto foi sepultado de vez. Mas como aconteceu retomada ainda que promocional em 2018, indica que as irregularidades junto ao TJSP foram municipalmente resolvidas. E sim, isso provoca interrogação paralela: e se desse PDT nas eleições de 2016, se Jorge Lapas fosse reeleito?

Não é preciso pensar para apostar seco que Osasco não estaria hoje à sombra da carcaça milionária. E por que os sucessores não tiveram interesse? Politicamente seria tiro no pé – ressuscitar um projeto petista?

Quanto a Estação Osasco, nasceu em função da Operação Tietê 2. A partir do momento que a obra municipal é interrompida, a empresa também capitula – se o projeto era monumental, a queda foi na mesma proporção.

 

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