Independência do Brasil com D. Pedro no Grito do Ipiranga comove o imaginário brasileiro em modo cinematográfico. Afinal, é justamente isso que o quadro encomendado em 1886 pelo governo de São Paulo a Pedro Américo cuida de encenar – foi entregue pelo artista em 1888, um ano antes da Proclamação da República.
No entanto e para desencanto do imaginário coletivo que consagra o bravo herói com espada pronta para derramar sangue pela liberdade, a história desmistifica o drama. Primeiro, porque D. Pedro jamais lutaria contra a família, ele honrava a linhagem; segundo, porque ele estava agindo pelos interesses da Corte – de manter o Brasil sob a Coroa, ainda que independente.
Como assim, caro D. Pedro?
Fato, havia muita história portuguesa em jogo, como muita riqueza. Assim, independência tendo à frente um príncipe português, abafaria qualquer tentativa de levante republicano – no entorno do Brasil, o continente fragmentava-se por conta desse modelo que fazia surgir ditadores e guerras civis.
D. Pedro queria evitar tudo isso. Ele pensava pela Corte e sabia que precisava alinhar os interesses portugueses com a história do Brasil – se ele perdesse a mão, a elite concentrada no Rio de Janeiro poderia gritar a própria independência e, aí sim, o país poderia entrar num cenário de sangue.
Então, ele cuidou dos interesses dos políticos locais, dos latifundiários e dos burocratas do Rio de Janeiro para com a Coroa. Ao subir a ladeira do litoral rumo a São Paulo, o príncipe tinha tudo acordado quando em 7 de setembro.
No mais, ele seguia à risca o conselho real do pai D. João VI, dado um ano antes do Grito: “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros.”
O herói do Ipiranga pensava em modo português e pela longevidade da Casa de Bragança. Tanto que nove anos após a independência, em 1831, estava em Portugal. O pai havia falecido em 1826, ele posava como herdeiro direto só que não podia assumir, pois a Constituição Brasileira de 1824 proibia duas coroas.
A grande jogada: o príncipe abdica do trono mas o passa à filha D. Maria II; para atrelar mais a família, ele a dá em casamento ao irmão D. Miguel. Acontece que D. Pedro tomaria golpe imperial em 1828, pois o irmão trai a esposa e rouba-lhe a coroa – isso causou guerra civil até 1834. Foi nessa época que o herói da independência abdicou do trono brasileiro por D. Pedro II.
Ainda sobre a guerra contra o irmão, o príncipe partiu para Portugal como Duque de Bragança e à frente de uma frota com mercenários – derrotou os golpistas, devolveu o trono à filha e garantiu a estabilidade da família monárquica antes de sucumbir pela tuberculose em 1834. Isso sim, roteiro próprio dos filmes de ação. Já no Ipiranga…
D. Pedro sem filtro
O príncipe valente no cavalo branco e bradando espada pelo Brasil é o herói eternizado por Pedro Américo. Sem esse filtro, D. Pedro era um português da nobreza que defendia a família e a Corte, fazendo o impossível para alinhar esses interesses como regente do Brasil.
Sim, a independência bateria contra interesses de exploradores portugueses sob suporte das Cortes de Lisboa, um movimento que pregava liberalismo na Europa mas que impunha recolonização ao Brasil.
Com o selo das Cortes Gerais, esses exploradores sugavam riquezas e dominavam grandes regiões como Bahia, Maranhão, Pará e estendendo-se até Cisplatina (Uruguai) – estamos falando de importação e exportação monopolizadas por exploradores portugueses.
Esse mercado agressivo e subordinado a Lisboa foi combatido pelas forças imperiais brasileiras e a história está aí para contar a Guerra da Independência na Bahia (1822-23).
Por fim, 7 de setembro de 1822 foi dia político importante para D. Pedro, também para os interesses da Coroa portuguesa. Com a independência, o príncipe garantia o legado no Brasil e mantinha-se fiel à linhagem real. Sim, o quadro de Pedro Américo dá efeito cinematográfico à história.
