Futsal campeão de Cotia está em desmanche

setembro 17
13:51 2015

Em 2010 as meninas festejavam o cobiçado título do Campeonato Paulista. Um feito e tanto para uma modalidade de alta competição como o futsal. Por esse grande resultado, um futuro ainda mais promissor abrindo-se para elas, certo? Ao contrário.

A partir da temporada seguinte o futsal feminino de Cotia começou a sofrer perda de apoio municipal. Ainda assim, eis as garotas jogando muito até na Liga Futsal, levando a cidade ao quarto lugar do nacional. Mas nada disso foi suficiente para equilibrar a situação que vem se agravando ano após ano.

O jornalista Ricardo Silva acompanha o projeto do futsal feminino de Cotia desde então. Conta que as atletas passam por privações, já que a prefeitura cortou o bolsa-atleta e que até as escolinhas de futsal estão sofrendo com extinção de aulas. “Atualmente, pode-se dizer que a modalidade cotiana com maior expressão nacional está jogada para escanteio”, garante Ricardo Silva.

A situação para a temporada é preocupante para o elenco, pois Cotia está mesmo com o calendário em off e correndo risco de ficar de fora dos Jogos Abertos do Interior. Lembrando que nesta temporada a foice entrou rapidamente em ação, pois Cotia foi para o Campeonato Paulista e disputou apenas duas rodadas.

Sem investimento, o elenco perdeu as principais jogadoras e não houve reposição. Acostumado à alta competitividade, Cotia amargou 5 a 2 diante de Marília na partida de estreia, seguido por vexatórios 8 a 1 para São Bernardo. Seria humilhação demais para um time de tradição e, assim, Cotia nem foi para a terceira rodada, seria contra Taboão da Serra.

Apesar de tudo isso, eis a equipe honrando a camisa da cidade na 2ª divisão dos Jogos Regionais disputados em São Bernardo dois meses atrás, e dá-lhe Cotia campeã com 5 a 3 sobre Mauá. A seguir, publicação na íntegra do manifesto que parte do futsal feminino. (Márcio Silvio)

CARTA ABERTA
A DESTRUIÇÃO POLÍTICA DE UMA EQUIPE CAMPEÃ

Cotia, cidade da Grande São Paulo. 229 mil habitantes, 50% de área verde e, entre tantas modalidades esportivas, uma que conseguiu títulos estaduais e projeção nacional.

Pois bem, hoje a equipe desta modalidade sofre uma completa destruição, realizada pelos gestores esportivos na parte política do município. Falo do futsal feminino cotiano.

Trabalhei como assessor de imprensa da equipe de novembro de 2010 a março de 2012. As garotas representam a cidade desde 2001 e não é só nas quadras – no futebol também. Quando cheguei em 2010, vi as limitações locais no âmbito esportivo, porém havia a enorme vontade de vencer.

O futsal feminino de Cotia era um dos principais exemplo disso. Tanto que, numa tarde quente de dezembro daquele ano, conquistou o primeiro título do município na elite federada, considerando todos os esportes: campeã paulista de futsal feminino. Foi sobre a fortíssima equipe do Palmeiras e teve acompanhamento até da TV Gazeta.

Além disso, o time levou o nome de Cotia para o Brasil e o mundo. Jogou a Liga Futsal Feminina (principal competição da modalidade) nos quatro anos seguintes, disputou a Taça Brasil de 2011 e teve até duas atletas japonesas fazendo estágio.

Sem contar as escolinhas dando oportunidades para meninos e meninas. Poderiam praticar um esporte que trazia orgulho para a localidade e ficariam afastados das ruas, da violência e das drogas. Poderiam chegar ao alto nível ou, se não conseguissem, ao menos seriam cidadãos responsáveis, de caráter.

Sem contar que o feminino ampliou sua ação e passou a gerenciar uma equipe de futsal masculino, cheios de pratas-da-casa. Sem contar o recente projeto Futsal Ação Social, em que as jogadoras promoviam e arbitravam partidas masculinas, dando uma oportunidade para que os cidadãos praticassem esporte nas suas horas de lazer.

Nem toda essa qualidade serviu para que a administração local, através de sua Secretaria de Esportes, Juventude e Lazer, olhasse com carinho para o futsal feminino. Em Cotia impera a política do clientelismo e da amizade, do tipo: “Ou você está comigo e faz tudo o que mando, ou vou te destruir!”

Das trapalhadas, negativas, interesses estranhos e até morte

Em 2011, o secretário era Serafim Monteiro. Entre uma trapalhada e outra (incluindo a equipe quase ficar sem transporte para um jogo no interior, correndo risco de WO) era possível trabalhar. Destaque-se que foram construídas duas quadras de tamanho 40m x 20m no espaço externo ao Ginásio Municipal de Esportes, dentro de seu complexo. Sem dúvida, um ganho.

Em 2012, assumiu Dado Mendes. Não foi um grande ano, e o futsal e futebol feminino sentiram alguns golpes. Chegou a se classificar para a fase final dos Jogos da Juventude (Sub 18) no futebol, mas não pôde se apresentar porque teve transporte negado. Aliás, o “não” para diversas solicitações era recorrente – o que poderia ser notado por uma certa diminuição de atividades do alto rendimento e sua base imediata. Indo além das modalidades citadas, houve um absurdo: sabendo que a cidade mal dava conta de seus problemas, Cotia se candidatou para sediar os Jogos Abertos do Interior. E ganhou.

Em 2013, entrou o Dr. Aílton Ferreira como secretário. Aí que a relação entre equipe e secretaria se deteriorou mais. Realizou um horripilante corte no programa Bolsa Atleta, que nem tinha valor tão alto (o máximo era de R$ 545 numa época em que o salário mínimo estava em R$ 678). O pretexto era investir mais na parte social. Porém, sabe-se lá os reais interesses do Dr. Aílton. Aliás, uma das prioridades das bolsas seria a destinação para atletas abaixo de 21 anos. Curiosamente, o próprio time dele, o “Doutores da Bola” era, no máximo, Sub 20… Precisa ser gênio para entender a jogada?

Após muita luta, o futsal feminino conseguiu recuperar algumas bolsas. Honrado, respondeu em quadra ficando em 4º lugar na Liga Futsal Feminina – melhor resultado nacional da história do esporte coletivo cotiano.

Ainda assim, sofreu duríssimo golpe naquele ano. Dr. Aílton cancelou as aulas das escolinhas. Diversos jovens ficaram sem praticar a modalidade que tanto gostam. Toda a função social que o secretário falava estava indo para a lata do lixo.

Em 2014, o futsal feminino cotiano seguiu padecendo com os desmandos do poder público. Aulas seguiam canceladas e as bolsas recuperadas eram insuficientes. Com isso, ótimas atletas, que eram professoras ou estagiárias, acabaram saindo da equipe, aceitando melhores propostas.

E, num escopo maior, obviamente que Cotia desistiu de sediar os Abertos. Repito: como poderia receber o evento se mal cuidava dos seus problemas esportivos? Querem prova? Em outubro daquele ano, um garoto morreu eletrocutado em uma das quadras externas menores do complexo do Ginásio Municipal. A partir de então, as mesmas ficaram fechadas. Vejam, até morte aconteceu!

E neste ano…

Neste 2015, veio a cereja venenosa do bolo estragado oferecido pelo poder público cotiano às mulheres do futsal. Entrou de secretário André Vasquez. Fui informado de que é professor de história. Nada contra a belíssima profissão, porém parece que André não possui a mínima competência técnica para gerenciar tal pasta.

Verdade que o ginásio foi reaberto, porém o futsal feminino está sofrendo uma série de terríveis ataques, parecendo que desejam o seu fim. A professora líder e idealizadora do trabalho, Andressa de Azevedo, vem sendo sistematicamente perseguida, conforme me relataram. Influências políticas e traições estariam causando um ano péssimo.

A equipe, sem conseguir atletas competitivas, viu-se obrigada a desistir do Paulista da modalidade para não fazer feio. De acordo com relatos, houve a promessa de retorno das escolinhas. Até aconteceu, contudo comandadas por outro professor, cuja especialidade é futebol de campo. Soube que ele procurou fazer seu melhor, mas teve que se afastar por motivos de saúde. Conclusão: o futsal nos dois sexos, que era a modalidade mais requisitada no ginásio, ficou totalmente paralisado.

E para ver como Andressa e suas atletas não praticam a ‘política da vingança’, tão comum em cidades de menor porte, fui informado que elas fizeram panfletos e distribuíram nas escolas da cidade, divulgando as aulas mesmo sendo com outro professor. Consequentemente, houve altíssima procura.

Chegou ao meu conhecimento que a iniciativa Futsal Ação Social foi paralisada e que, para piorar, o seu projeto foi tomado, ou, se preferirem, “roubado” – para que outras pessoas o executem futuramente, e não suas idealizadoras. Teria sido dada a justificativa de que ele seria “melhorado”. Por fim, Andressa foi transferida do Esporte e colocada à disposição na Educação.

E, mesmo assim, Cotia ganhou o ouro no futsal feminino da Segunda Divisão nos Regionais, classificando-se para os Abertos. Pois bem, com toda essa desestruturação, aliada à falta de treinos e ao desinteresse da secretaria, há a possibilidade da equipe não comparecer no certame estadual e acarretar em punição: o regulamento prevê que a cidade que tiver modalidade qualificada para a Olimpíada Caipira e desistir de participar, fica impedida de entrar nos Regionais do outro ano na mesma modalidade e sexo. Só para constar, o time de futsal feminino foi o único do município, entre os de quadra, campeão nos Regionais disputados em São Bernardo do Campo.

Recebi a informação de que o secretário quer equipes com total ligação com a cidade, no que está certo. Por acaso, esta equipe de futsal feminino não tem fortíssima ligação com o município? Representa-a desde 2001! Não é apenas um ano, nem dois: são 15 temporadas!

O que o sr. André Vasquez quer de verdade?

E ficam dúvidas. Quais as reais intenções do novo secretário? Seria divulgação de seus (poucos) trabalhos para posteriormente se aproveitar? Teria fins políticos pensando em outras finalidades, que não servir à população?

Até porque, para a mídia regional, é mostrado largamente que o ginásio está com várias atividades. Belas fotos e boas palavras. Mas me chegam informações que, no local, há sempre uma pintura ali, um conserto aqui, uma lixada acolá… Várias intervenções no espaço que atrapalham o andamento das aulas. Ao invés de fazer uma reforma de verdade ou de maneira inteligente, só são tomadas medidas paliativas.

Parece que a morte do menino não conscientizou o poder público que a praça desportiva precisa de uma mudança de fato. Será que estão esperando acontecer outra tragédia? Ou será que as belas imagens são mais importantes?

A população quer projetos sociais? Claro. Porém, quer equipes vitoriosas também, levando o nome da cidade aos mais altos níveis. Todos sabem que os garotos e garotas se espelham e confiam mais em professores vencedores, sendo um incentivo para que procurem o esporte.

E por que o sr. Vasquez, como já expressou verbalmente para as atletas, não quer o futsal feminino cotiano? Por que a modalidade, de tantos serviços prestados e títulos não lhe tem mais utilidade? Quem fala, contesta e o enfrenta, incomoda e merece ser totalmente descartado?

Por isso, não há como eu me calar diante dos fatos. Não há como me silenciar diante de tudo que me chega. Envio por e-mail e posto em meu Facebook pessoal esta longa carta, saindo em defesa do futsal feminino cotiano. Um projeto de 15 temporadas que sempre uniu alto rendimento vitorioso, atividade intensa nas questões sociais dentro do esporte e responsabilidade nos gastos. E que, nos últimos anos, vem sendo ignorado e achincalhado. Os fantasmas não estão no time. Devem ser procurados nas secretas intenções dos atuais administradores locais.

Cotia, uma cidade que me acolheu tão bem e a qual sou muito grato, mas cuja administração não tem dado o mesmo acolhimento para o futsal e futebol feminino. Prefere, isto sim, ser uma mãe que maltrata a filha.

E tenho dito!

 

Ricardo Silva
Jornalista e Repórter Fotográfico

Em 2010, festa do título paulista e início da crise. (Foto, Ricardo Silva)

Em 2010, festa do título paulista e início da crise. (Foto, Ricardo Silva)

Ainda assim, o futsal feminino foi campeão na 2ª divisão dos Jogos Regionais deste ano em São Bernardo.

Ainda assim, o futsal feminino foi campeão na 2ª divisão dos Jogos Regionais deste ano em São Bernardo.

Sobre o Autor

admin

admin