Semana Dimitri: Osasco lembra 1º voo na América Latina

setembro 10
20:00 2015

Uma semana inteira dedicada a um feito além do tempo e que ocorreu em Osasco. O fotógrafo Rômulo Fasanaro reúne arquivos de fotos do primeiro voo realizado na América Latina, exposição que começa na próxima segunda-feira, indo até o dia 18.

Para entender esse trabalho do fotógrafo (foto acima), nada melhor do que embarcar num voo de volta ao passado, quando a indústria da aviação ainda era um sonho de futuro, pois tudo ainda estava nas mãos dos irreverentes malucos do ar.

Em outubro de 1906, Santos Dumont arrepiava o mundo voando 60 metros com o 14 Bis. Quatro anos depois e no topo da hoje avenida João Batista, centro de Osasco, um engenheiro francês assombrava com o primeiro voo no Brasil e em toda América Latina. O ano é 1910, 7 de janeiro. Dimitri Sensaud de Lavaud era um sonhador e aventureiro, morava com a família no Chalé Brícola, atual Museu de Osasco. Ele construiu o São Paulo e colocou nele as iniciais DSL, referindo-se ao próprio nome.

Do chalé da família há a descida da João Batista. Daquele ponto foi dado o arranque para os impressionantes 105 metros. Para os padrões de hoje não significam nada, mas é bom lembrar que estamos em 1910 e num ainda bairro de São Paulo, numa Osasco cercada por matas e praticamente rural.

O francês ficou por 6 segundos e 18 décimos no ar e para percorrer uma distância menor que um campo de futebol, ficando entre 3 e 4 metros de altitude. Bem, comparando os 105 metros com os 220 de Santos Dumont, esse francês maluco até que fez bonito.

Maluco mesmo, pois o DSL não tinha amortecedores, o trem de pouso estourou e o avião foi um produto artesanal mesmo – levou 1 ano inteiro para finalizar o avião e mandar o voo. E voar era o sonho de consumo daquele rapaz de 28 anos, que desde moleque consumia tudo o que era engenharia.

Bem, Dimitri era espanhol de nascimento, com berço em Valladolid, nascido em 18 de setembro de 1882. Essa data, por sinal, fecha a exposição anunciada pelo fotógrafo Fasanaro em Osasco. Mas Dimitri é dado francês por conta da ascendência paterna – e o nome de batismo do herói osasquense é Mariano Demetrio Sensaud Bogdanoff.

Ele construiu o DSL em parceria com o italiano Lourenço Pellegatti, e mudou-se para Osasco em 1898. Era um rapazola de 16 anos e antenado com a tecnologia de então. No entanto, depois dessa saga de levantar voo sobre a avenida João Batista, ele amargaria a frieza por parte da sociedade brasileira, intensamente fã de Dumont, esse sim um patrício da gema, mineiro dos bons.

E o maluco às da engenharia de voo e que fez notícia em Osasco? Para começar era francês, ainda que essencialmente espanhol. Não tinha nada de brasileiro. Apesar de ter feito tudo em solo nacional, tratava-se de um estrangeiro especulador.

No entanto, o jovem Dimitri buscava o sonho de realizar o primeiro voo por aqui, levantou um hangar nas proximidades do Chalé Brícola e se concentrou nos trabalhos até colocar o DSL no ar. Tudo no avião foi feito com materiais do País, o motor foi construído em São Paulo e as hélices em Jequitibá.

Dimitri usou sarrafo de pinho e peroba para o esqueleto da nave que receberia o apelido de Gafanhotão. Cobertura de cretone envernizado, grampos e cabos de aço, mais rodas de bicicleta deram o toque final.

O engenheiro não entendia uma coisa: se Santos Dumont, apesar de brasileiro genuíno era um afrancesado cem por cento, por que ele, um estrangeiro nato, não poderia ser aceito abrasileirado? De fato, ele se naturalizaria brasileiro.

Depois daquele voo em 1910, Dimitri teve fracassos seguidos com o São Paulo DSL e abandonou a ideia. Dedicou-se à engenharia propriamente dita e tornou-se milionário em pouquíssimo tempo. Mas quando a vida era aquele mar de dinheiro e de glamour para o milionário Dimitri, vem a II Guerra Mundial.

Ele quis ajudar a França como engenheiro bélico, mas acabou sendo pego pelos nazistas. Quando foi libertado, caiu na desgraça dos franceses, acusado de ter trabalhado para os alemães. Isso não aconteceu, mas Dimitri pagou um alto preço. Quando a França foi libertada em 1944, ele foi preso pelos americanos e apodreceu por 10 meses na cadeia – mesmo sem provas de que havia colaborado com os nazistas.

O governo brasileiro até que tentou a libertação dele via diplomacia, mas não conseguiu. Quando foi inocentado, não havia mais nada para ele. Estava falido, desacreditado, com 64 anos e com todas as portas fechadas. Esse foi o último voo do grande Dimitri – um francês injustiçado, e um inventor brasileiro igualmente desconsiderado. Dimitri Sensaud de Lavaud está sepultado em Neuilly-sur-Seine, imediações de Paris. (Márcio Silvio)

 

SOBRE A EXPOSIÇÃO
O fotógrafo Rômulo Fasanaro abre a semana DSL na Escola de Artes em três horários, próxima segunda-feira: 10, 15 e 19h. Na terça feira a exposição será no Ceneart, seguindo na quarta-feira, 16, para o saguão da Prefeitura de Osasco, às 15h.

Na quinta-feira, 17, a exposição estará no saguão da Escola de Artes, 18h30, fechando a mostra na sexta-feira, às 12h no Restaurante do Servidor. Mais tarde, 18h, segue o encerramento da Semana Dimitri e no local mais apropriado, no Museu de Osasco, onde tudo começou.

 

NOTINHAS
– em 1909 ele tentava arrumar um motor fundido, mas ficou com tanta raiva que fez xixi sobre a peça; e o resultado foi que a reação sobre o metal derretido fez o motor funcionar.
– a partir disso ele passou a fabricar tubos para esse processo, invenção que o fez milionário.
– Dimitri tem mais de mil patentes registradas e viveu largamente até estourar a 2ª Guerra Mundial.
– era filho do barão francês Evaristhe Sensaud de Lavaud e da russa Alexandrina Bognadoff. Antes de vir para Osasco a família vivia na Turquia.
– Dimitri viveu na Europa até os 15 anos, falava francês e latim, além de russo.
– casou-se em 1903 com Bertha Rachoud, e em 1916 conseguiria cidadania brasileira.
– como as coisas no Brasil não lhe eram favoráveis, aventurou-se por Estados Unidos e Canadá, fixando residência na França, em 1920.
– entre as tantas invenções do engenheiro, tem a de 1927: primeiro sistema de câmbio automático para automóveis – em 1930 a Citroën comprou a patente.

10. Cartaz 1º voo

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