REPÚBLICA: feridas de uma mulher misteriosa inflamaram o marechal contra o império

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REPÚBLICA: feridas de uma mulher misteriosa inflamaram o marechal contra o império
novembro 15
16:32 2017

Entre tantos movimentos políticos no Brasil, um se destaca por fincar raízes na monarquia. Nessa militância destaca-se Luiz Philippe de Orleans e Bragança, tataraneto do último imperador do Brasil, D. Pedro II.

O movimento Acorda Brasil é de conteúdo direitista e reforça a denúncia que aquele 15 de novembro de 1889 marca um golpe militar para derrubar a monarquia. Mas esse brado imperial não se restringe a uma militância simplesmente identificada com o regime monárquico, mas há uma linha importante de historiadores dando base legal à teoria.

O paulistano Eduardo Prado, por exemplo, lançou o livro ‘Os fatos da ditadura militar no Brasil’, onde alinha que a Proclamação da República foi um golpe de Estado. No mais, José Murilo de Carvalho publicou recentemente o oitavo livro sobre o tema, ‘O pecado original da República’.

Trata-se de um historiador e intelectual dos mais respeitados e que reforça a reivindicação da militância monárquica de hoje. Murilo destaca que os fatos daquele 15 de novembro não contaram com a participação popular, que foi mesmo uma articulação de cima para baixo. Portanto, um golpe.

O que dizem os atuais monarquistas? Que os republicanos eram minoria na Câmara e que a sociedade estava indo bem como império. Aliás, o próprio marechal Deodoro da Fonseca era uma das celebridades imperiais, amigo pessoal e de confiança de D. Pedro e com uma vida poderosa na corte; que o marechal não seria o personagem central do levante republicano, mas o primeiro-ministro Visconde de Ouro Preto, responsável por guindar o militar ao complô – mas sem a assinatura do próprio marechal. Assim, segundo os historiadores e a linha monarquista de agora, o golpe começou nessa sutileza do visconde.

E o que aconteceu? Ao saber da jogada do primeiro-ministro e por ver o nome envolvido no escândalo contra o amigo imperador, o marechal deixou a febre de lado e reuniu forças do exército no centro do Rio, ato de defesa ao imperador e para a demissão do visconde, que teria criado um tremendo racha que causou o fechamento do Parlamento.

Como o marechal era um homem-símbolo do País, assim que tomou conta da praça ficou sabendo da saída do primeiro-ministro e que o novo nomeado era Gaspar Silveira Martins. As coisas poderiam tomar outro rumo se não fosse Gaspar Silveira? No entanto, foi essa nomeação que fez a casa cair para o marechal. E por que? Ele e Gaspar eram rivais até a debaixo d´água.

Se Deodoro da Fonseca pedia a cabeça do Visconde de Nova Granada, quanto a Gaspar Martins ele cobraria cabeça, tronco e membros, pois eram inimigos declarados.

Alguma bronca militar, coisas de campanha, desavenças políticas ou qualquer outro babado forte entre eles? Não, apenas uma mulher. Sim, o poderoso Deodoro e o novo primeiro-ministro, em outro momento caíram nos braços de uma mesma amada.

E a disputa por esse colo seria tremenda, cruel e deixando feridas abertas para sempre. Aquele 15 de novembro, portanto, selaria de vez a rivalidade entre os dois. O marechal já estava ali no centro do Rio e, diante da inusitada ascensão do inimigo Gaspar Silveira Martins, então o amigão do imperador, tomado de fúria e buscando vingança, voltou-se para o lado republicano, ergueu o quepe para o brado histórico da república.

Ainda sobre o golpe, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz vai além no livro ‘As barbas do imperador’ , ao duvidar que nem ouve o badalado berro da República e que, portanto, a República do Brasil não fora proclamada, mas aclamada. A diferença? É que não foi um processo político legal, mas uma ação manipulada dentro do poder e contra o próprio poder – sem nenhuma participação ou vontade popular.

O famoso quadro que retrata esse momento histórico daquele 15 de novembro seria pintado quatro anos depois pelo artista Benedito Calixto. Diante de informações do ocorrido em 1889, então ele assinou a obra ‘Proclamação da República’, em 1893.

No quadro, o cenário é o Campo de Santana, ex-Praça da Aclamação e onde D. Pedro I nomeou-se imperador. Na tela, à direita vê o Palácio Duque de Caxias que fica ao lado da estação Central do Brasil. Toda praça é tomada por militares da cavalaria e canhões; no centro da obra, o marechal com o braço direito levantado é destaque, sinalizando a proclamação.

E por que o marechal nesse levante? Trava-se de um herói de guerra (contra o Paraguai, 1864-1870), sendo um homem de extremo respeito por toda força militar. E ele contava com todo esse apoio para derrubar o primeiro-ministro Visconde de Ouro Preto, que fora nomeado por D. Pedro II meses antes com o objetivo principal de conciliação com o bloco republicano.

Mas o visconde trabalhou contra o império e fez a crise aumentar, levando o imperador a fechar o parlamento. Esse foi o foco do golpe – os republicanos esperavam unicamente por isso e o império mordeu a isca. A rebelião militar começou na noite de 14 de novembro em São Cristóvão, e foi esse batalhão que reuniu-se sob o quebe de Deodoro da Fonseca na manhã do dia seguinte na praça central – todos contra o Visconde de Ouro Preto, responsável direto pelo raxa do império com os republicanos.

Tudo consumado, num dia como o de hoje, parlamentares comemoravam na Câmara Municipal do Rio de Janeiro a leitura de José do Patrocínio declarando a Proclamação da República. Por consequência, dois dias depois a família imperial seria banida do País e demonizada politicamente.

De volta ao quadro de Benedito Calixto, o cenário é próprio de ação militar e sem qualquer apelo popular – a sociedade civil não faz parte da proclamação e os sem uniforme que aparecem são da cúpula política que comandaria o novo governo. O marechal estava com cerca de 500 militares entre soldados, alunos da Escola Superior de Guerra e oficiais; o regimento de artilharia contava 16 canhões que dispararam 21 tiros.

Por fim, quem foi a mulher que teria levado o marechal ao extremo da fúria contra o novo primeiro-ministro, chegando ao ponto de trair a confiança do amigo imperador e voltar-se aos republicanos? Esse é mais um caso que fica no baú de mistérios do Brasil.

 

 

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Sobre o Autor

Marcio Silvio

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