João Antônio, de Osasco e entre os grandes da literatura brasileira

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João Antônio, de Osasco e entre os grandes da literatura brasileira
dezembro 04
16:13 2017

O que era Osasco e como era Osasco em janeiro de 1937? Um vasto território a oeste de São Paulo, desafiando enormes dificuldades sociais mas em franca expansão. A emancipação política viria três décadas mais tarde, bem como todo crescimento que faria da cidade uma das potências econômicas do Estado.

Naquele cenário ainda grotesco e rude no histórico bairro de Presidente Altino, nasceu João Antônio Ferreira Filho. Esse bairro concentra famílias armênias, mas essa criança nascida em 1937 não fazia parte desse clã, era de uma família tipicamente local e cuja infância marcaria os textos que ganhariam a imprensa do País.

Aos 26 anos e quando Osasco era recém-emancipada de São Paulo, o jovem surpreendia ao publicar Malagueta, Perus e Bacanaço, obra que ainda na primeira edição rendeu-lhe dois prêmio Jabuti – como autor revelação e como melhor livro de contos.

Os textos do rapaz tinham a ver com a vida suburbana. João Antônio conviveu com as dificuldades de Osasco naqueles anos como bairro de São Paulo, e levou para as obras essas realidades em forma de imaginário. Tanto que em 1976 o livro Jogo da Vida viraria filme tendo Lima Duarte como um dos grandes nomes no elenco.

Com o sucesso em alta, aquele moço de Osasco foi convidado para o Jornal do Brasil. Também passaria por O Globo e Tribuna da Imprensa. Essa nova experiência resultaria em outro lance inovador para ele, pois 1966 faria parte do lançamento da revista Realidade, e foi nesse veículo que marcaria o nome com o primeiro conto-reportagem. Essa linguagem textual fazia a diferença na imprensa brasileira. João Antônio era muito disputado e usou da máquina de datilografia também em redações provocativas como revista Manchete e O Pasquim.

Tudo ia muito bem para ele. Casado com Marília Mendonça e pai de Daniel Pedro, mas no final dos anos 60 entra num surto incontrolável e abandona tudo, família e sociedade. Um período incompreensível na vida de João Antônio mas que resultou em quinze livros – ele nem participava das festas de lançamento das obras. Já os final dos anos 80 e aos 50 anos, ganhou bolsa de estudo e foi para a Alemanha, vivendo lá por três anos.

Pertences e a história desse osasquense encontram-se no Departamento de Literatura da Universidade Estadual Paulista em Assis. Ali, o Acervo João Antônio é aberto à visitação e exibe manuscritos, revistas, quadros, jornais, discos e os troféus do escritor.

João Antônio sempre lidou com o submundo, com a marginalidade – crianças abandonadas, prostitutas, homossexuais, bares e botecos, periferia, favelas, desempregados, trabalhadores à míngua salarial….

Ele recebeu dois prêmios Jabuti em 1963, e em 1993 teve o terceiro pelo livro Guardador, entre outros dez troféus que consagram a carreira desse cidadão nascido em terras de Osasco.

Mas quem pensa que João Antônio é história sepultada, deve saber que a escrita dele está ressurgindo de forma espetacular no mundo acadêmico. Júlio Cezar Bastoni da Silva é pesquisador do Centro de Educação e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Carlos, e para o pós-doutorado ele fez o estudo ‘Corpo a corpo com o Brasil: os dilemas da identidade nacional em João Antônio”. Júlio Cezar é um entre outros pesquisadores que estão resgatando a literatura de João Antônio.

Ainda sobre os dois prêmios Jabuti em 1963, João Antônio venceu num período onde a literatura brasileira contava com gigantes como Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Drummond e Murilo Mendes. Por fim, no mês passado a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP realizou os 80 Anos de João Antônio, dois dias de conferências e exibições do legado literário desse escritor do submundo.

Ele teve um fim tão insólito quanto os personagens que viveu nos escritos. Era outubro de 1996 quando um zelador arromba a porta do apartamento em Copacabana. O corpo jazia há três semanas ali – o escritor fora vítima de infarto. Foi encontrado porque vizinhos notaram muitos urubus rondando as proximidades. Tinha 59 anos.

 

 

 

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Sobre o Autor

Marcio Silvio

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