1º PREFEITO: Osasco repara erro histórico pela honra de Hirant Sanazar

 Extra!
setembro 30
20:43 2015

Quando o regime militar se articulava, a movimentação política em Osasco era tensa. Então ligada à Capital, passava por um período de transição de independência política para tornar-se município. Naquele período de turbilhões, Osasco conquista a emancipação e elege o primeiro prefeito. Em 19 de fevereiro de 1962 o eleito Hirant Sanazar (PTN) assinava a ata de posse – a eleição acontecera no dia 4 daquele mês e Sanazar teve 9.823 dos 23.283 votos válidos.

O mandato do primeiro prefeito de Osasco seria de 1962 a 1967, mas o regime militar tomou conta da prefeitura de Osasco acusando corrupção. Entrou em ação um Inquérito Policial Militar contra Hirant Sanazar, que foi sumariamente tirado do cargo.

Isso foi no início da revolução militar (foto acima), com partidos políticos e instituições sendo fechados, já que o regime erguia bandeira contra a corrupção e a subversão. A situação em Osasco ficaria ainda mais tensa em 1964, quando o município sofreria intervenção federal. Então o cerco foi geral e o regime militar estava implacável. Por fim, o prefeito Hirant Sanazar e os vereadores foram presos e os cargos anulados.

Provas? Nenhuma. Todas as prisões tiveram como base denúncias anônimas e nenhuma delas comprovadas. No entanto, como os militares estavam naquele furor, bastava um telefonema qualquer para dar poder de legitimidade a todo tipo de repressão. E com Hirant fora do gabinete, quem assumiu o posto foi o vice-prefeito Marino Pedro Nicoletti, eleito como interventor federal.

Qual a justificativa da polícia para a prisão do prefeito Hirant? Naqueles primeiros anos de Osasco município, tanto a prefeitura como a Câmara Municipal estavam aprendendo a lidar com a novidade – aprovar o primeiro orçamento, por exemplo, e montar o quadro dos servidores públicos. “Nós construímos o município do nada”, lembrou o vereador Aymoré de Mello Dias, que formou o grupo de estreia daquele Legislativo.

A Câmara foi instalada num parque infantil, enquanto a prefeitura ocupava um prédio ameaçado de ruir. Ou seja, Osasco não existia enquanto cidade. Era um município recém-nascido e que estava discutindo as leis mais básicas para a sobrevivência. Não tinha praça, nem água ou esgoto, mas crescia rapidamente. Hirant Sanazar foi atrás do governador porque a cidade era carente de tudo – apenas três ruas pavimentadas e umas seis iluminadas. Para cuidar dessas emergências sociais, Câmara Municipal e prefeitura dependiam de regulamentação de leis para taxas e impostos.

A cidade precisava de fórum e várias áreas foram desapropriadas para construção de parques infantis, escolas, praças e avenidas. Nesse embalo a prefeitura criou a Biblioteca Municipal Monteiro Lobato e a Juventude Cívica de Osasco, a Juco; e também foi criado o Corpo de Bombeiros.

O governador era Carvalho Pinto e o prefeito de São Paulo era Prestes Maia. Aos poucos as primeiras leis começaram a fazer a máquina ganhar potência, até que chega uma discussão calorosa na Câmara – projeto do Executivo para abertura de concorrência pública para o DDD (Discagem Direta à Distância). O projeto da prefeitura foi aprovado pelos vereadores e a Cotespa (Companhia Telefônica Suburbana Paulista) venceu a concorrência. Então chega o golpe militar…

Denúncias anônimas encheram a polícia de fúria, pois acusavam o poder público de Osasco de corrupção. Com o regime feito tsunami, os vereadores e o prefeito Hirant foram presos. Os vereadores foram acusados de receberem propinas para aprovação do projeto da prefeitura, naquele caso da Cotespa; e o prefeito estava preso por ser o facilitador do projeto para tirar proveito próprio.

Mas não era só isso contra o prefeito, pois Hirant Sanazar era visto com um homem perigoso por ligar o projeto dos serviços telefônicos a uma empresa da Alemanha Oriental – o que fazia dele um subversivo, já que tratava com um país comunista. Na acusação, o IPM grifava que Hirant Sanazar receberia benefícios pessoais da suposta empresa alemã.

Naturalmente que esse inquérito não deu em nada e acabou arquivado, mas a ferida aberta não seria fechada. Um acerto do regime militar com Osasco foi deixar o cargo de prefeito vago. A Câmara Municipal estava lacrada, e para que pudessem retomar as cadeiras no Legislativo os vereadores foram obrigados a colaborar com a decisão do regime e sob a tutela do interventor Marino Pedro Nicoletti.

Hirant preso, mas depois o expediente retornaria à Câmara Municipal, e na prefeitura tudo seguia naturalmente. Assim, Osasco vai seguindo rumo ao progresso e essa história ficando cada vez mais distante.

Como advogado de sucesso, Hirant se dedicaria aos tribunais para se consolidar num dos mais respeitados. Respirava Osasco o tempo todo e mantinha-se fiel aos ideais políticos, ainda que à margem da militância. Um herói do movimento emancipacionista, criador da famosa Juco em abril de 1962, um dos fundadores da Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção de Osasco, e que hoje dá nome a uma grande avenida que liga o centro à zona Sul, e também é o nome da Faculdade de Tecnologia de Osasco, inaugurada em 2010.

Enquanto prefeito, Hirant Sanazar foi um gigante remando contra a maré política. Montou a prefeitura na base de ajuda de cidadãos como Marrey Jr. e Amador Aguiar. Com apoio do Bradesco ele pode instalar o Executivo em novo prédio, depois iria conseguir caminhões de lixo para o lugar das carroças, asfaltaria 44 ruas e cuidaria do paisagismo da nova cidade. No mais, iluminou o centro e as principais vias públicas e construiu 105 mil metros de guias e sarjetas.

Depois da prisão e solto por falta de provas, amargaria por anos a cassação política. Então, em novembro de 2003 ele fazia o que mais gostava, discursar. Era o Dia da Bandeira e o incansável Hirant falava do sentimento brasileiro. Ele passou mal durante o discurso, mas isso não o abalou. No entanto, quatro dias depois sofreria um Acidente Vascular Cerebral (AVC), seguido de infarto.

Essa história de Osasco e que vinha fechada por cinco décadas, abre-se agora por conta da Comissão Municipal da Verdade, que resgatou aqueles acontecimentos dos anos 60. O resultado é o reconhecimento a Hirant Sanazar, reparando o rasgo causado pelo regime militar. Trata-se de uma questão moral, segundo o Comitê Municipal da Verdade.

Assim, está marcado o Reempossamento Simbólico do Primeiro Prefeito de Osasco, Sessão Solene do Cinquentenário da Recondução de Hirant Sanazar ao Cargo. Será na próxima segunda-feira, às 19h na Sala Osasco da prefeitura – avenida Bussocaba, 300, Vila Campesina. É um passo de justiça dado por Osasco, e para honrar a própria história e a memória de um de seus mais nobres filhos. (Márcio Silvio)

Os primeiros vereadores.

Os primeiros vereadores.

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Cerimônia da posse do prefeito Hirant Sanazar.

Cerimônia da posse do prefeito Hirant Sanazar.

A prefeitura de Osasco sendo ocupada pelo regime militar.

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